Evoluir, um processo que leva tempo, exige esforço e dedicação. No futebol essa palavra vem recheada de peso – os resultados devem aparecer logo, afinal as críticas surgem na mesma velocidade. Buscando prevenir jovens jogadores e ao mesmo tempo seguir potencializando seus talentos, diversos clubes se utilizam dos empréstimos como solução a este problema.

Para exemplificar, vou utilizar um dos maiores sucessos recentes nesse quesito, o lateral direito Achraf Hakimi. O atleta pertence ao Real Madrid, e foi emprestado no ano de 2018 ao Borussia Dortmund como forma de manter sua ascensão e possibilitar mais oportunidades de titularidade, algo que ele não vinha tendo na equipe merengue.

O marroquino chegou ao clube blanco com oito anos de idade. Sua estreia no elenco principal aconteceu em janeiro de 2017, onde disputou 17 partidas, sendo: nove no Campeonato Espanhol, cinco na Copa do Rei, duas na Champions League e uma no Mundial de Clubes.

Os primeiros resquícios de seu grande potencial surgiram nesta mesma época, foi aqui também que descobrimos sua versatilidade quando começou a ser relacionado para jogar na lateral esquerda.

Bom, agora que todos entendemos do que se trata esse texto, vamos fazer uma análise da evolução de Achraf Hakimi nesses dois anos de empréstimo, além é claro de entender sua importância dentro do elenco aurinegros e como ele pode agregar futuramente ao Real Madrid. 

Quando tudo começou

Mapa de calor com todas as atuções de Hakimi na temporada de 2018/19 (Foto:Reprodução/SofaScore)

Em 10 de junho de 2018, Hakimi é oficialmente emprestado ao clube alemão Borussia Dortmund, onde teria vínculo até junho de 2020. Inicialmente, chegou para ser uma peça de reposição do experiente Lukasz Piszczek, o novato ficaria no banco de reservas, mas isso só durou até a página dois.

Com um início ruim no campeonato, o rival polonês foi aos poucos perdendo espaço e abrindo oportunidades para o marroquino. A primeira de fato, veio na vitória do Dortmund por 7 a 0 diante do Nuremberg. Quando Hakimi anotou seu primeiro gol na equipe, aos 49’ minutos da partida.

Mapa de calor da primeira partida de Hakimi pelo Borussia Dortmund (Foto:Reprodução/SofaScore)

A partir daqui, a titularidade do atleta passou a ser quase que uma obrigatoriedade nas partidas seguintes. Como lateral direito fez três partidas no começo anotando um gol e dando duas assistências. Entretanto, seu poder de versatilidade começaria novamente a ser colocado em prática quando Marcel Schmelzer se lesionou e Raphael Guerreiro estava em baixa. Dessa forma, o flanco esquerdo estava sem um jogador que pudesse assumir a posição.

Após algumas improvisações, o técnico Lucien Favre optou por usar Hakimi nas partidas que seguiram, e foi por ali que o atleta conseguiu mostrar seu futebol mais completo. Talvez, o melhor exemplo seja as três assistências distribuídas contra o Atlético de Madrid pela Champions League. Uma noite que ficaria marcada na carreira do jogador.

Hakimi atuando pela lateral esquerda contra o Atlético de Madrid (Foto:Reprodução/SofaScore)

E foi assim que ele atuou no primeiro turno da Bundesliga, sempre alternando entre as duas posições. Foi também o momento da sua melhor fase desde que desembarcou na Alemanha, sendo titular em 18 jogos, com seis assistências e um gol. Situação que mudaria no segundo turno, após uma queda de rendimento e uma lesão no final de março diante do Wolfsburg que o afastou do restante daquela temporada.

Em partida disputa diante da equipe do Hannover 96 o jogador atuou por ambas as laterais (Foto: Reprodução/SofaScore)

Analisando os pontos fortes do jogador que o fizeram ganhar destaque na equipe alemã temos, por exemplo, velocidade, versatilidade e força física. Uma das suas principais características são os cortes de marcação em direção ao meio-campo, desafogando assim o time em diversas situações, além é claro de seguir viabilizando jogadas pela linha de fundo.

Outro ponto, é que sua velocidade se mistura com um arranque potente, isso aliás o tornou em um dos jogadores de maior rapidez da Bundesliga. Fato que foi confirmado na temporada seguinte, após o jogador bater o recorde da competição ao atingir impressionantes 36,4 km/h.

Com ele em campo, o Dortmund passa a ter um leque muito maior de possibilidades ofensivas. No total, jogou em 28 partidas com três gols e sete assistências, onde se dividiu com 16 partidas pela esquerda e 12 pela direita – somando todas as competições.

A consolidação de um trabalho

Mapa de calor da temporada de 2019/20 de Achraf Hakimi (Foto:Reprodução/SofaScore)

Chegamos então a segunda temporada de Achraf Hakimi, agora adaptado ao futebol alemão e com total confiança do treinador da equipe. 

Bem, até o momento sabemos que o jogador se descobriu com grandes habilidades ofensivas. Mas, e o lado defensivo? Também é uma das qualidades técnicas do marroquino? Respondo com certo pesar, não.

Apesar de ser extremamente adaptado e possuir grande destreza no ataque, não podemos dizer o mesmo quando o assunto é a marcação defensiva do atleta. O equilíbrio esperado entre as duas funções acaba por não existir.

Hakimi amadureceu seu futebol em diversos aspectos, mas em outros segue deixando a desejar. Ele possui grande liberdade no esquema dos aurinegros, e foi também vital para algumas mudanças táticas que aconteceram na equipe atualmente. Entretanto, esse estilo cria um efeito colateral ao passo que o atleta começa a se preocupar mais em servir ao ataque, do que conservar sua posição original. 

Isso seria errado? Na medida certa não, afinal temos muitos exemplos assim no futebol mundial. O problema começa quando a estrutura dentro de campo não dá conta e sem perceber sobrecarrega outros setores – neste caso podemos especificar a zaga.

O Borussia Dortmund possui um dos piores sistemas defensivos da europa, isso é muito ocasionado pelo choque entre a entrega total a um sistema ofensivo, e a pouca cobertura defensiva praticada ao longo das partidas. Isso ocasiona naqueles famosos jogos onde a equipe marca quatro gols, e sofre três do adversário.

Até a recente parada nos campeonatos de futebol pelo mundo, por conta da pandemia COVID-19, Hakimi possuía os seguintes números: 37 jogos como titular, sete gols anotados e 10 assistências distribuídas. Marcas de dar inveja a qualquer lateral, e que evidenciam ainda mais seu lado ofensivo.

Somando suas duas temporadas atuando pelo clube alemão, temos os seguintes dados até o momento: 65 jogos, 10 gols e 17 assistências.

O futuro no Real Madrid

Carvajal e Hakimi na final do Mundial de Clubes (Foto/Reprodução)

Depois desse resumão, não poderia deixar de projetar o que será em breve o futuro de Hakimi e, claro, estou falando do Real Madrid. A volta do jogador para o clube é certa e abrange inclusive uma grande renovação de contrato.

A título de comparação, vamos fazer um breve cara a cara entre o atleta e seu principal rival de posição na equipe, o espanhol Dani Carvajal. Vou utilizar dois pontos para isso: a ofensividade e o poder defensivo.

No primeiro, ambos se destacam muito bem: sobem ao ataque com rapidez, utilizam de lançamentos diretos na área, e ainda conseguem uma boa infiltração entre as jogadas. Contudo, Hakimi ainda leva certa vantagem por conseguir agregar outras coisas ao setor. Além de também oferecer mais assistências e finalizar melhor marcando o dobro de gols. 

Ainda assim, o principal problema apresentado pela equipe merengue continua sendo defender pelas laterais. Se a intenção é mudar esse cenário apostando na titularidade do marroquino, saiba que não vai acontecer.

Mesmo sendo criticado pelos problemas defensivos, Carvajal ainda consegue ser muito mais contundente do que seu rival. A experiência do espanhol pesa nessa hora, onde mantém ainda que com dificuldades o básico da marcação. O que não ocorre com Hakimi, por exemplo, que já demonstrou em diversos momento pouca afinidade com esse fundamento. 

Em suma, o Real Madrid ganhará com a incorporação do marroquino que ainda é novo, possui 21 anos, e tem muito talento. Porém, se o objetivo for superar problemas anteriores, saiba de antemão que dificilmente acontecerá.